Sobre ressignificar coisas ruins

Eu Mesma, Na Minha Cabeça

Pouco mais de um mês depois do meu último post aqui no blog, aquele falando sobre depressão e, principalmente, sobre a minha depressão, volto a me sentir inteira de novo. Não 100%, mas com pedaços suficientes reunidos e colados. Percebo que chegou a hora de voltar e dizer que me sinto como eu mesma de novo, que tive tempo de me voltar pra dentro de mim, me recolher, me reconstruir e me analisar. Analisar tudo o que aconteceu e dar um novo significado pra essas “coisas ruins”.

Quem me conhece sabe que eu tenho algumas verdades absolutas nessa vida. Crenças que me regem nessa aventura desvairada que é viver. A maior dessas minhas verdades é: “Tudo acontece por um motivo e tudo acontece como têm que acontecer”.

O que isso significa?

Quando estou lúcida o bastante, mentalmente saudável e equilibrada, sei que, mesmo que as coisas pareçam muito ruins quando acontecem, elas estão acontecendo com um objetivo: me ensinar uma lição, me preparar pra conseguir sobreviver a algo pior ou até mesmo me tirar de um caminho “errado”, pra me colocar em um certo.

As coisas acontecem como têm que acontecer.

Não estou dizendo que é simples acreditar nisso. Nem que a minha recuperação foi fácil. A verdade é que é difícil e me reerguer depois de tudo o que aconteceu. Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Essa foi de longe a pior crise que tive. Me lembro do desespero das primeiras semanas, do quanto eu estava aflita para melhorar. Como eu não me sentia como eu mesma. Como eu queria voltar a me sentir inteira logo. Eu sabia que aquelas sensações horríveis, aquela vontade de não existir, era obra de um desequilíbrio químico no meu cérebro, mas não conseguia escapar dos sentimentos mesmo assim.

Precisei de pelo menos um mês pra ter vontade de ver uma série ou filme outra vez. Precisei me esforçar pra falar com as pessoas, mesmo que pra responder qualquer mensagem de apoio que recebi pelo WhatsApp ou Instagram. Todas as vezes em que meus amigos conseguiram me arrastar pra fora de casa, parecia que eu estava assistindo tudo através de um vidro. Eu conseguia ver todos se divertindo, mas não me sentia parte daquilo.

Dessa vez a medicação demorou um bocado pra fazer efeito. Entre noites insones, revivendo todos os meus erros, a decepção que causei e a vergonha que eu tinha, as sessões de terapia foram cruciais. Foram tantos os dias em que minha terapeuta me perguntou se eu estava me sentindo bem e eu respondi que não. Além de tudo, ainda me sentia culpada por estar no fundo do poço e estar cavando pra baixo.

Mas o interessante da terapia é que a gente percebe que o problema nem sempre é aquele que fez a nossa mente se quebrar.

Na minha primeira sessão eu estava arrasada por ter perdido o meu emprego. Foi isso que me lançou no fundo daquele poço. A sensação de incompetência, de não ter sido suficiente, de não conseguir a única coisa que me propus a conseguir, aquilo me destruiu.

Entendam, nunca fui a pessoa que teve sonhos convencionais. Eu não queria crescer, me casar, ter filhos e viver uma vida mediana. Nunca foquei essencialmente em romance ou diversão. Meu sonho era o sucesso. Crescer, estudar, ser inteligente, conseguir as coisas por meus méritos e ser independente. Quando essa chance, que eu enxergava como minha grande chance, foi tirada de mim, fiquei desnorteada. Foi como se o prédio que eu estava cuidadosamente construindo despencasse de uma vez em cima da minha cabeça. Tudo pelo que eu lutei. Tudo pelo que eu trabalhei desde sempre, reduzido à cinzas. E eu soterrada lá embaixo, sem conseguir respirar. Sem vontade de cavar a minha saída. Tão cansada de tudo dando sempre tão errado.

Foi difícil acreditar que tudo aquilo tinha acontecido por um motivo, sabe?

Então comecei a imaginar que lições a vida estava me ensinando a partir dessa rasteira.

A primeira de todas, e uma que eu já devia ter aprendido há algum tempo, foi: não confiar nas pessoas. Pelo menos não tão cegamente quanto eu costumo acreditar. Ali em cima falei de uma das minhas verdades absolutas, outra delas é: sempre tentar enxergar o lado bom das pessoas. Isso já me rendeu tanta decepção que vocês não tem ideia. Porém, ainda sigo tendo essa confiança instantânea em quem não conheço direito e isso, infelizmente, acaba me deixando vulnerável à gente que é invejosa e precisa usar de artimanhas baixas para se promover em cima de outra pessoa.

Queria dizer que em momento algum me isento da minha culpa em tudo o que aconteceu. Foi uma decisão só minha fazer postagens sobre direitos trabalhistas no Instagram. E mesmo que essas postagens tenham sido provocadas por birra e infantilidade de terceiros, que não têm a capacidade mínima de entender sentimentos e muito menos gerir pessoas, sei que não deveria ter me rebelado tão publicamente, mesmo com meu atestado de desequilibrada mental na mesa.

A segunda coisa que aprendi foi: não me deixar levar pelas emoções. Não agir no calor do momento. Pensar e pensar e pensar antes de tomar qualquer atitude. Depois de tudo o que aconteceu, até mesmo esse texto foi cuidadosamente pensado antes de ser redigido e publicado. Vocês podem ter absoluta certeza que nunca mais vão ver explosões tão enérgicas vindas da minha pessoa.

A terceira coisa foi a questão da humildade. Não sei se já deu pra perceber, mas sou uma pessoa muito orgulhosa. Minha demissão foi um tiro no meu orgulho. Pra alguém que nunca havia sido demitida na vida, que só trocava de emprego quando sentia que sua missão ali havia sido cumprida e que não havia mais nada a aprender, ter a jornada interrompida tão cedo foi terrível. Mas também me ensinou a não dar nada como garantido. Me fez perceber que eu não sou invencível, indispensável. Sou apenas humana. Cometo erros. Pago por esses erros.

No fim das contas, só quando fiquei em paz com a minha demissão, e com as pessoas que causaram a mesma (aqui incluo a mim mesma também), foi que comecei a superar. Me perdoar e entender que nem tudo foi culpa minha, que houve a interferência de terceiros, mas que a vida se encarregará deles, foi primordial pra começar a juntar os meus pedacinhos espalhados ao vento.

Não sustento rancor pelas pessoas responsáveis pelo meu surto e mais tarde pela minha demissão. Outra das minhas verdades é: não adianta tomar veneno esperando que o outro morra envenenado. O rancor só faz mal, única e exclusivamente, a mim. E pra não perder o gancho, aqui vai outra verdade: nós colhemos aquilo que plantamos. Então eu sei que a vida vai se encarregar deles, por isso sigo em paz.

No fim do dia eu consegui. Pode não ter sido fácil, mas recolhi os pedacinhos da minha mente, juntei tudo de novo, colei e deixei ela mais forte do que antes.

Esse texto foi escrito não apenas pra tranquilizar todo mundo sobre o meu estado atual, mas também para dizer pra todas as pessoas que estão com a saúde mental abalada, principalmente com os últimos acontecimentos (pandemia, quarentena, incertezas), que pedir ajuda é importante. Eu só estou bem por que continuo fazendo terapia. Continuo cavando os problemas dentro do meu coração pra tentar curá-lo. Continuo tomando a minha medicação e tentando ver o lado bom da vida.

Quero te dizer que é possível melhorar, parece que não, MAS É! Se agarre nas suas verdades fundamentais, se lembre dos bons momentos, por que eles voltam. Mesmo no fundo do poço, quando a gente olha pra cima, é capaz de ver a luz. A gente só precisa escalar as paredes escorregadias pra conseguir botar a cabeça pra fora. Peça ajuda e se sinta confortável em ME PEDIR AJUDA. Eu estou aqui, eu sei como é, e juntos é mais fácil de vencer do que sozinhos.

Se você não se sentir confortável em falar comigo, com seus amigos ou familiares, procure ajuda especializada. Se não estiver sabendo lidar com o isolamento por causa do COVID-19, se está ficando ansioso, depressivo, agressivo, compulsivo ou com medo demais, podem acessar o site A Chave da Questão. Nesse site tem diversos psicólogos conectados que podem ajudar as pessoas a lidar com as próprias dificuldades. Eles estão atendendo online, completamente de graça, todo mundo que precisa de ajuda.

No último texto eu finalizei dizendo pra ninguém soltar a mão de ninguém, mas no momento em que estamos vivendo é importante abrir mão de algumas ações em prol do coletivo. Então lavem bem as mãos, não saiam de casa e se amem e ajudem a distancia. Tudo vai passar. Nós vamos ficar bem ♥

Sobre Depressão

Na Minha Cabeça

Quem me vê sorrindo por aí, brincando, contando piadas e me fazendo de forte, mal consegue imaginar o inferno confuso que se passa dentro da minha cabecinha de química defeituosa.

No post de hoje resolvi abordar esse tema muito falado, mas pouco compreendido pela sociedade. Esse vai ser um texto bem pessoal, e lembrando que não sou psicóloga, nem psiquiatra, nem terapeuta. Só sou uma pessoa doente, que quer desabafar e que compreende muito pouco do espectro dessa doença. Ou do que se passa dentro da própria cabeça.

Eu nunca quis admitir que era uma pessoa depressiva, sabe? Sempre me orgulhei de parecer uma mulher forte e independente, que não leva desaforo pra casa, que não deixa nada atingi-la. E, até certo ponto da minha vida, fui essa mulher, essa garota.

O negócio com não deixar nada te atingir, de fingir que não se importa com nada, de guardar esses sentimentos todos dentro de você e não colocá-los pra fora, é que eles vão se acumulando ali no seu íntimo. De pouquinho em pouquinho a galinha enche o papo. E de gota em gota o balde, em algum momento, vai transbordar.

Bem vindos a Grande Crise de 2017

Foi o meu primeiro episódio depressivo e lembro que na época não enxerguei dessa forma. Não achei que estava com depressão. Tive um ataque no trabalho. Perdi o emprego e passei os próximos 6 meses dentro do meu quarto, deitada no escuro, sem fazer nada. Não fiz uma maratona de séries. Não assisti os filmes que queria ver. Não li os livros acumulados na estante. Só fiquei ali deitada, por SEIS MESES, pensando em como era bom quando eu estava dormindo e como seria melhor ainda se eu pudesse dormir pra sempre.

Inevitavelmente “the life snake”. Em algum momento eu precisei levantar sozinha e achar um emprego. Minha prima querida, aquela que sempre foi como uma irmã pra mim, iria se casar e eu precisava encontrar um trabalho rápido, pra conseguir juntar dinheiro e pegar férias na época certa, até por que o casamento seria nos Estados Unidos.

Achei o emprego, diferente de tudo com o que eu estava acostumada a fazer, mas ainda dentro do escopo da minha formação. No início foi bem legal. Sempre é. Mas aos poucos eu fui ficando mais uma vez frustrada comigo e com a minha vida. Comecei a reconhecer novamente todas aquelas emoções fora de controle dentro de mim. As crises de choro. A sensação de não ser boa o bastante. Uma insuficiência revoltante.

Mas eu tinha um objetivo: um ano de empresa, juntar dinheiro, tirar férias e viajar pro casamento da minha prima. Depois que essa meta foi alcançada, todos os efeitos do que eu estava sentindo antes da viagem foram triplicados. Eu mal tinha forças pra abrir os olhos de manhã. Eu NÃO QUERIA abrir os olhos. Não queria sair da cama. Não queria fazer nada.

E então, bem vindos à Grande Crise de 2019

Esse foi o momento em que percebi que precisava de ajuda.

Desde que todos esses sintomas tinham começado, eu tendi a forçar um sorriso na cara, a parecer mais forte do que antes, a fazer mais piadas do que antes, por que não queria que ninguém visse quão fraca e infeliz eu era na verdade.

Acho que sempre fui orgulhosa. Sempre me importei com a imagem que as pessoas tinham de mim. Eu queria que elas me vissem empoderada, alto astral, bem humorada, bem sucedida. Por que, em algum momento da minha vida, eu já tinha sido essa pessoa, e não queria abrir mão dela. Só que, né, eu já tinha perdido aquela garota há algum tempo e fingir acaba sendo tão cansativo que as vezes você explode. De novo.

Essa foi uma explosão mais sutil, entretanto não quer dizer que não tenha deixado um rastro de destruição pelo caminho. Precisei que uma amiga me dissesse que eu precisava de ajuda. Precisei que ela me arrastasse até o Pronto Socorro Psiquiátrico da Vila Mariana, o CAISM.

Durante o atendimento com a psiquiatra, mais chorei do que falei. E odeio tanto chorar na frente das pessoas. Não me incomodo de chorar com um filme, um livro, um trailer de cinema ou até mesmo um comercial da Johnson’s de fim de ano. Mas eu detesto chorar por mim. Detesto a vulnerabilidade. Detestei o quanto me senti fraca e patética contando os meus problemas para aquela doutora, sendo que no mundo tinha gente com muito mais problema do que eu. Me senti ingrata. Não merecedora de estar ali, ocupando o lugar de uma pessoa com sofrimentos muito mais reais que o meu.

Mas então a doutora me fez uma pergunta. Aquela que me fez refletir e reavaliar algumas coisas. Ela disse: “Pâmela, você já pensou em se matar ou se machucar de alguma forma?” e eu travei. Por que nunca pensei em me machucar, mas definitivamente a perspectiva de morrer estava começando a parecer mais agradável do que a de viver.

Foi quando eu aceitei que tinha um problema. Que tinha depressão. Que precisava de tratamento.

Sai dali com uma receita de Sertralina e Quetiapina, um encaminhamento para a UBS, para psicoterapia, e a promessa de que ficaria bem.

E eu fiquei. Por um tempo. Acho que foram os meses mais “felizes” da minha vida esses em que estive medicada: consegui o emprego dos sonhos, me libertei de amarras sociais, tive um maior entendimento e clareza sobre a vida, sobre mim e sobre a minha cabeça. Vocês devem se lembrar do meu otimismo nos últimos posts, sobre como eu disse que 2019 foi um ano difícil, mas que eu sobrevivi, que estava mais forte, mais feliz, era a melhor versão de mim mesma naquele momento, e buscava seguir evoluindo, seguir buscando essa pessoa perfeita.

Gente, a pessoa perfeita não existe.

Mais um vez, bem vindos à Primeira Grande Crise de 2020.

Não demorou tanto desta vez.

E me ajudou a entender um pouco mais sobre mim também. Todas as crises meio que trazem alguma revelação intima sobre meus conflitos internos, meus gatilhos. Porém, essa foi grande. O equivalente à explosão nuclear de Hiroshima e Nagasaki na minha vidinha. Deixou um rastro de destruição que ainda nem sou capaz de avaliar. Na verdade, estou escrevendo esse texto ainda no meio dessa crise. A gente pode chamar de pós-crise, que é quando eu tô ali tentando escalar o poço, e a Samara tá puxando o meu pé.

Não tô legal, gente. Não to nada legal. Essa foi a pior de todas e tudo começou quando o psiquiatra da UBS resolveu que era hora de diminuir a minha medicação.

Não me levem a mal, o SUS realmente salva vidas e eu não sei o que teria sido de mim em 2019 se não fosse pelo Sistema Único de Saúde. Porém é muito louco pra pouco médico. Eu estava fazendo tratamento, mas não era aquela coisa ideal. Não tinha como, o doutor mal se lembrava da minha cara, das minhas queixas. Ele é um daqueles senhores adeptos à tratamentos alternativos, meditação, prática de esportes, etc. Não está errado, quem sou eu pra questionar o doutorado dele. É só que, pra uma criatura com ansiedade desde sempre, um claro desequilíbrio na química cerebral, ficar sentada numa sala meditando só piora.

Comecei a tomar a Sertralina dia sim e dia não. A Quetiapina ele já tinha se livrado no primeiro mês, pois segundo ele não precisava daquilo pra dormir, precisava fazer atividade física, mas doutor, na atual conjuntura, que horas que eu vou conseguir fazer atividade física? Cheguei no ponto de só ter uma boa noite de sono com um Clonazepam ilegal. Ou um baseado. Só essas coisinhas conseguiam fazer o barulho insuportável no meu cérebro cessar pra eu poder dormir em paz.

Não demorou muito pra redução da Sertralina começar a me deixar ansiosa de novo. Entre crises de ansiedade e estresse, minhas mãos e pés começaram a estourar com Disidrose, meu cabelo começou a cair, minhas costas, tensas, travaram. Percebi que não estava bem. Que coisas bobas, que não estavam mais me afetando há meses, começavam a me assombrar novamente.

Corri pra UBS, o psiquiatra me mandou meditar. Isso foi numa quarta-feira.

Meditei, levei bronca de novo por não estar fazendo atividades físicas, e sai de lá decidida a voltar a tomar a Sertralina todos os dias, o doutor querendo ou não.

Comecei, mas acho que o estrago já estava feito.

Na mesma semana, também conhecida como última sexta-feira (14), tive um surto no trabalho. Quem me acompanha no Instagram talvez tenha visto as publicações enlouquecidas no ódio e na raiva. Não me lembro muito do que aconteceu naquela sexta, acho que dei uma desassociada. Não consegui comer. Só tremia de raiva por que imaginava não estar sendo valorizada como deveria. No caso eu não era suficiente.

No sábado pós-surto consegui analisar algumas coisas sobre mim e sobre essa crise. Tenho um problema de auto-estima. Surtei no trabalho por que entendi que não estava sendo suficiente ali, mesmo dando tudo de mim, não estava sendo o bastante. Essa constatação trouxe consigo o sentimento de que também nunca fui uma filha suficiente pros meus pais. Ou uma mulher suficiente pra ter algum relacionamento. Tudo isso se juntou dentro de mim, cresceu e explodiu num monte de merda com consequências terríveis.

Na segunda-feira pós-surto eu fui demitida.

Bem vindos à Segunda Grande Crise de 2020.

Vindo na rabeira da primeira, essa explodiu na minha cara com a minha dispensa do trabalho.

Entendam, eu nunca tinha sido demitida na vida. Em todos esses anos trabalhando, sempre precisei pedir pra sair dos lugares quando encontrava um emprego melhor. E eu tinha grandes planos e expectativas pra esse emprego. Apesar do surto, eu amava ele. Quando isso foi tirado de mim, num primeiro momento disse pra mim mesma que tudo bem. Segurei bem as pontas enquanto estava acompanhada. Mas bastou ficar sozinha pra ter uma crise de choro absurda.

Acho que nunca chorei tanto na minha vida. Nem quando meu cachorro mais antigo morreu. Cheguei em casa tremendo, assustei tanto meus pais que ganhei um abraço da minha mãe (não me lembro nunca de ter ganhado um desses), um copo de água com açúcar e a promessa de que eu encontraria outro trabalho. Só que eu não quero outro trabalho. Me senti uma vergonha. Uma decepção. Na minha cabeça essa era a minha grande chance, foi a minha grande virada no ano passado, e eu joguei tudo no lixo, por que sou uma transtornada de merda.

Não conseguia contar pros meus pais, e percebam, ainda não consegui contar pra ninguém exatamente o que eu fiz pra merecer a demissão, por que estou morrendo de vergonha. Tô com vergonha do meu pai, que tem mais de 60 anos, é aposentado e continua trabalhando numa metalúrgica, pra conseguir sustentar a família. Tô com vergonha da minha mãe, que se mata tentando encontrar um emprego e não consegue. Tô com vergonha da pessoa que me indicou nesse trabalho, que eu devo ter decepcionado em níveis estratosféricos. Tô com vergonha do meu antigo chefe, por que sinto que também decepcionei ele e frustrei nós dois. Tô com vergonha das pessoas que eu deixei pra trás, lá, sozinhas, por que elas contavam comigo e agora estão se ferrando sem mim lá pra defendê-las e ajudá-las.

Ainda não consegui atualizar meu LinkedIn com meu novo status de desempregada. Estou com medo do que as pessoas vão pensar. Que eu não fui capaz, que não fui suficiente, que não aguentei a barra, afinal, que merda ficar só 4 meses em um cargo de Gerente de Projetos na Editora Caras, não é mesmo? Dá uma sensação de incompetência absurda, e eu odeio ser incompetente. Eu queria ser grande, eu queria deixar meus pais orgulhosos, eu queria ser perfeita, eu queria um super sucesso profissional.

E agora sinto como se não tivesse nada.

Sinto que joguei meu futuro no lixo por ser uma doente do caralho.

Estou passando com um novo psiquiatra, que o próprio diretor da empresa arrumou pra mim, ele já trocou todos os meus remédios e me mandou urgente para a psicoterapia: aparentemente eu tenho um caso de ansiedade com tendências depressivas e muito baixa auto-estima.

Meu corpo ainda está se adaptando com a medicação nova, então estou zonza a maior parte do tempo, e tenho vontade de dormir pra sempre. Ainda me pego pensando qual o objetivo disso tudo? Da vida? De viver? Se a gente só sofre, sofre e sofre. Pra que isso? Não é nem que eu queira morrer de fato… é mais como se eu só não quisesse existir.

Então, como vocês podem notar, ainda estou um lixo. Ainda não quero falar com ninguém.

Acho que só estou escrevendo isso aqui pra ver se desafogo um pouco o meu peito. Ou, sei lá, pra alertar as pessoas que se sentem do mesmo jeito que eu a procurar ajuda. Só quem passa por isso sabe como é e ninguém que não tenha depressão vai conseguir compreender uma pessoa que tem. Eles podem dizer que estão ali pra você e oferecer suporte, mas pouca gente quer realmente ouvir. Pouca gente vai compreender o quanto você precisa mesmo de ajuda.

Amanhã tenho terapia e sigo engatinhando pra fora do poço sem muita vontade.

Não sei bem como terminar esse texto. Acho que é por que a tempestade dentro de mim ainda não acabou. Então acho que só vou dizer, aos incompreendidos com os mesmos problemas que eu, pra ninguém soltar a mão de ninguém.

É isso.